1 de maio de 2008

Amor passageiro


(Crônica antiga, das épocas de "Palavras perfeitas"...)

Ele já sabia que dali a poucos minutos aquele ônibus se tornaria um forno. Um tedioso forno gigante. Com alguns anos de profissão, o jovem cobrador de ônibus já estava habituado aos trocos, aos pontos, aos terminais. Se no começo era empolgante brincar de decorar os pontos de parada, logo a coisa perdeu a graça e ele fazia isso mecanicamente. Aquele seria outro dia comum em sua vida tambem comum.

Mas ela apareceu.

Ele nem ergueria os olhos, mas foi atraído pelo perfume adocicado e cativante, pela fragancia adoravelmente feminina. E então ele a viu. Por um instante ficou vidrado, com os olhos presos nos olhos casatanho-dourados a moça. Um breve instante, pois ela logo tocou o cartão magnético na catraca e passou para o outro lado. Ele a seguiu com os olhos, calculando distraidamente trocos e liberando passageiros quase sem notar. Observou-a atentamente. Pelo modo como olhava constante para o relógio, estava atrasada. Estava observando a maciez delicada com que ela esfregava as mãos uma na outra quando um telefone tocou. Estava pronto pra mentalmente xingar, quando notou que o celular era dela. Ela atendeu. E sorriu um sorriso que iluminou seu rosto. Ele apurou os ouvidos pra ouvir o que la dizia. "...estou chegando...". Agora tinha certeza. Ela estava mesmo atrasada. Seria para um encontro? "..claro, claro...eu também amo você..." Seu coração estava prestes a se despedaçar quando ela completou: " .. Eu, sei, mãe...Sei me cuidar...Ja estou chegando...Até mais!". O cobrador sorriu. E o homem que passava pela catraca tentou imaginar o que ele estava pensando.

Ela era bonita demais pra que ele não falasse com ela. Confirmou: ela não usava alianças nas mãos pequenas. Precisava sair daquela cadeira, ir até lá. A moça levantou-se. Deu sinal. Desceu pela porta traseira. Ele ainda pensou em descer do onibus, correr atras dela, perguntar o nome... Mas liberou a catraca pra senhora seguinte, como bom cobrador que era. Deixou que ela fosse. Era outro de seus amores passageiros...

4 comentários:

Leila Saads disse...

Que triste. Muitas vezes a gente não corre atrás do que é importante...
Gostei do trocadilho "amor passageiro".

Até!

Dolfo disse...

Sim ... a vida é repleta de amores passageiros. Mas o bom é quando surge um para sempre.

SOLDADO-NO-FRONT disse...

E PORQUE NÃO UM AMOR PASSAGEIRO?

!! @V@NTE !!

a clara menina Clara disse...

Que bonito isso: "amores passageiros".
A gente se apaixona por pessoas várias vezes ao dia, seja por um olhar, um sorriso. Dizem que isso é vida. Não sei ainda.

Brigada pelo elogio por lá.
Gostei disso aqui, tais linkada.

beijo, moça!

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