26 de agosto de 2008

Sem armas

(Ou "Como uma gentileza pode salvar sua vida")

Ele já sabia o que e como iria fazer, afinal faria o mesmo que fazia quase todos os dias. Já havia passado quase toda aquela manhã encostado naquela parede isolada da estação de trem, somente observando as pessoas, em busca da vítima certa. E parece que havia encontrado.

Jovem, calma, carregava uma bolsa e estava um tanto quanto arrumada. Parecia estar indo pra algum lugar, obviamente teria dinheiro. Melhor que isso: era pequena, do tipo que não saberia se defender muito bem. Não teve dúvidas, era ela. Aproximou-se, já pensando na história que contaria. Sim, porque a história era fundamental no plano. Devia comovê-la, dizer que “tinha Cinco irmãos doentes e era órfão de pai, mãe e avós”, ou contar que “estava desempregado e tinha 15 filhos pequenos pra criar sozinho, porque era viúvo” ou algo do tipo. Devia fazê-la acreditar nele, para que, ingênua, pegasse a carteira. Aí seria o momento de agir: pegaria o dinheiro das mãos dela violentamente, e sairia correndo. Ela ficaria tão sem armas, que antes que se recuperasse do susto, ele já teria sumido da vista.

- Bom dia, moça! Desculpa te pedir isso, mas é que tenho uma doença grave, e não tenho dinheiro pra ir de ônibus pro hospital. Tenho irmãos menores, estou desempregado, minha mãe está doente e meu pai está preso... Será que você não teria aí qualquer moedinha que me ajudasse moça? Nunca vai te fazer falta me dar uma moedinha...

Ela sorriu comovida, e ele pensou que aquela tinha sido mais fácil que sempre. Tirou do bolso uma moeda e colocou nas mãos dele. Em seguida, antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, ela deu-lhe uma abraço leve, e disse com um sorriso comovido:

- Não se preocupa não, moço. Tudo vai melhorar, você só precisa ter fé, ta bem? Deus te abençoe, moço. Tenha um bom dia! Tchau!

Ela sorriu de novo e acenou pra ele antes de se afastar. Ele ficou tão sem armas, que, antes que se recuperasse do susto, ela já tinha sumido da vista.

4 comentários:

disse...

=0
Nunca li algo tão lindo e tão comovente que nem esse texto.

sem palavras! =)

beijo

JOICE WORM disse...

Olá Aline,
...foi um verdadeiro tapa com luva de pelica...
Um beijo para ti, linda!

Daniele V. disse...

Pois é, um gesto vale por tudo nessa vida!

João Videira Santos disse...

Uma prosa suave e directa. Gostei.

Postar um comentário

Anote aí.