7 de janeiro de 2009

Milito

O Miguel na verdade nunca tinha existido depois do registro de nascimento. Desde muito novo, ganhou um apelido de Miguelito, e logo virou o Milito. Antes dos 5 anos, já se apresentava de assim para todos. Os amigos o chamavam assim, os pais, avós, primos, vizinhos e professores. Até as namoradas da adolescencia e os colegas de trabalho que teve o chamavam assim, "Milito". Simples e simpático, bem como o próprio garoto.
Agora, aos 20, ninguem na rua sabia quem era Miguel. Mas todos sabiam onde Milito morava, o que fazia e o que gostava.
Milito havia decidido sair sozinho naquela tarde de folga do trabalho. Não soube explicar porque, só saiu de casa, com seu sorriso franco de sempre. Comprimentou todos os vizinhos, e saiu pela cidade.
Já bastante longe de casa, decidiu parar numa das diversas lanchonetes, onde, sentado no balcão pediu um x-salada clássico. Logo, ele a viu.
Não conseguia ver o rosto dela por completo, nem a cor dos olhos. Ela estava sentada bem à sua frente no balcão, com a cabeça baixa, lendo atentamente um livro policial que o próprio Milito já havia lido - era, aliás, um de seus preferidos.
- Quem pediu o x-salada? - perguntou o atendente.
- Eu! - duas vozes haviam dito, ao mesmo tempo. À sua frente, ela já sorria. Tinha cabelos escuros levemente ondulados, e olhos entre o verde e o mel. Um rosto harmonico e belo, e um sorriso lindo. Milito ficou vidrado por alguns instantes, e disse ao Barman lentamente:
- Esse... é o dela...
- Obrigada! - a voz dela era um carícia, e ela ainda sorria.
Milito disse, antes que pudesse se conter:
- Esse livro é ótimo!
- Ah, voce já leu?
"...E que sorriso, e que voz...!", Milito pensava em suspiros.
- Já... Em que parte voce está?
- Na metade. O segundo assassinato acaba de acontecer!
- Ah, sim... É muito interessante, não é?
- É sim, bastante!
Sorriram um para o outro. Se encararam ainda, por mais alguns segundos.
- Qual o seu nome? - ela perguntou.
Ele analizou todos os detalhes dela, o modo como os lábios se moviam enquanto ela falava, o tom de voz que usava, e o esmalte claro nas unhas das mãos que seguravam o livro. Não pensou direito, não analizou o passado. Sorriu pra ela e respondeu:
- É Miguel.
- Muito prazer, Miguel. Meu nome é Ana. Não quer vir pra esse lado do balcão?
E foi ali, naquela lanchonete pequena e pouco movimentada, desfrutando de um X-salada, numa tarde aparentemente qualquer, que Milito morreu para o mundo, e Miguel nasceu para Ana.



3 comentários:

jessicadeverdade disse...

nossa amei tudo por aqui!
Té mais

jessicadeverdade disse...

brigadinha pela visita...
Continuemos então a trocar gentilezas...rs
té mais

Maria Fernanda disse...

Quanto tempo,
quantas saudades.

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