24 de fevereiro de 2009

10 andares

10 andares.
Queda livre.
Um fim tão rápido quanto trágico.


Lívia se inclinou na janela, com um suor gelado insistente a fazer caminhos por teu rosto. 10 andares, altura, carros passando na rua, alheios ao inferno interior que Lívia vivia.
Lágrimas de desespero misturaram se ao suor no rosto, e ela inclinou-se mais. Um vento frio e cortante chegou-lhe às faces e, com um suspiro longo, ela tornou a colocar a cabeça para dentro do quarto. Vítima de um choro agora compulsivo, ela abraçou os próprios joelhos e desesperada chorou mais. Lá fora os sons gritantes de uma cidade grande e de sua vida noturna, lá dentro o silêncio de uma alma que a muito perdera os motivos pra viver.

10 andares.
Queda livre.
Um fim tão rápido quanto trágico.


Levantou-se e voltou pra janela. Deixou seus olhos passearem pelas sombras e cores da cidade que morava em sua janela. As cores embaçaram um instante, e uma lágrima dolorosa caiu. Ela sabia o que devia fazer, sabia quais seriam as conseqüências, sabia que jamais seria perdoada. Nada disso a impediria de fazê-lo. A única certeza que tinha era essa. Engoliu o choro, precisaria ser forte. E seria. Nada a impediria nada! Pegou no chão o telefone celular que também já havia sido arremessado algumas horas antes.

10 andares.
Queda livre.
Um fim tão rápido quanto trágico.

- Alô? Beto?
- Que foi Lívia? Por que está me ligando?
- Eu... Eu só queria dizer adeus.
- Ahh, Lívia, sem drama. Você já é grandinha, pode se virar sem mim. Já te disse, estou em outra. Vou viver a minha vida com ela, e você faça o favor de viver a sua!
- Claro Beto. Eu vou fazer as minhas escolhas agora. E as minhas escolhas, pelo menos as escolhas que vou fazer nesse momento, e as conseqüências que vou assumir, são todas culpa sua, lembre-se disso.
- De que está falando, sua maluca?
- Aparece na janela, Beto? A que é de frente pro meu apartamento? Encara como um último pedido. Depois disso nunca mais vai me ver nessa vida...
- Certo, certo.

10 andares.
Queda livre.
Um fim tão rápido quanto trágico.


Ele apareceu. Havia um quê de desdém em sua expressão. Ela enxugou o choro da face, e deixou o celular cair. No chão pegou a arma que havia herdado do pai. Antes que ele pudesse reagir, ela atirou. Sentindo o sangue encharcar a camisa, com a dor a impedi-lo de pensar claramente, ele a olhou espantado. Ela olhou quando ele caiu pela janela de seu apartamento logo em frente ao seu. Acompanhou a trajetória dele, do 10º andar ao chão, em queda livre. Respirou fundo, quase que com alívio.

10 andares.
Queda livre.
Um fim tão rápido quanto trágico.

Sentou-se em sua cama, e acendeu um cigarro. Logo a polícia chegaria. Havia matado o homem que fora seu noivo até duas semanas atrás. Mas nada disso importava. Já havia feito o que queria fazer. A vida jamais seria a mesma, ela sabia. Mas ao menos o havia feito sangrar e morrer, exatamente como ele havia feito com o coração dela ao terminar tudo. Soltou um riso louco, longo, rouco. O riso alucinado de uma mente em desespero. Sussurrou, então, num breve sorriso:
- Adeus, Beto.


10 andares.
Queda livre.
Um fim tão rápido quanto trágico.

2 comentários:

Mandy disse...

já tinha lido antes no palavreando..
foi uma das coisas mais fascinantes que vc já escreveu .

Querido Diário Otário disse...

Permissão para fazer uma versão do "Existe uma menina em mim" com devidos créditos concedida. Haha até pareço uma major :B

Major Viviane Pedrosa, ai gostei ririri :P

Beijinhos ;*

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