24 de julho de 2009

Um ponto

Mal havia despertado, passava pouco das 6:30h, quando o celular tocou, perturbando-me o silêncio matinal. Procurei ainda no escuro, pois não havia acendido as luzes ainda, e quando achei-o mal olhei o visor e atendi, com um 'alô' que o sono tornara rouco. Do outro lado da linha, uma voz chorosa e conhecida dispensou apresentações.

- Sonhei com aquilo de novo. O mesmo sonho, o mesmo tormento, todo meio de mês! Não consigo mais aguentar, eu preciso ir vê-lo, pra colocar um ponto final nisso. Eu sei que não vou aguentar, mas acho que nao tenho outra escolha. Mas eu não quero e nem pretendo ir sozinha, entao queria que você fosse junto. Passo as nove aí, certo? - e um clique mínimo me avisou que ela havia desligado, sem esperar resposta e sem despedir-se.

Outro telefonema dela. Pobre Clara. Sempre atormentada pelos mesmos sentimentos obscuros, esquecidos, sempre no meio do mês. Suspirei devagar. Quanto tempo fazia agora...? Um ano, quase isso. Era de se esperar que, a essa altura, ela realmente quissesse vê-lo, ainda mais com esses pesadelos todos atormentando suas noites, e seus pensamentos. Devia estar curiosa, compreensível. Acho que por isso ela não esperou resposta no telefone; ela já sabia que era o tipo de pedido ao qual eu nao podia colocar objeção. Não quando já acompanhava seu drama há tanto tempo.

Ainda terminava de arrumar-me quando uma buzina tocou. Eu não tive duvidas de quem era, então apenas apaguei as luzes, peguei a bolsa, as chaves e saí. Do lado de fora um Sol ofuscava-me a vista, e parecia zombar de nós. Dentro do carro, Clara era só vazio. Os olhos perdidos não notavam o dia bonito. Eu sabia, porém, que assim que eu entrasse no carro, Clara iria me sorrir seu sorriso ensaiado, fosco, fraco. Tentei facilitar-lhe as coisas, então lhe disse um bom dia animado assim que abri a porta. Ela fingiu um susto, e eu fingi acreditar. Ficamos num silêncio incomodo, que se seguiu por muito tempo. Silêncio, esse, que eu só ousei quebrar depois de muitas ruas, e sinais, e placas, e curvas. "Aonde estamos indo?", e ela apenas sorriu, sincera, aérea: "É logo ali na frente".

Entramos num bosque calmo, estacionamos. Ela andou pela trilha, e eu a segui. Túmulos apareciam aqui e ali, e a atmosfera do lugar todo parecia estar em harmonia com eles. Havia uma paz triste, uns pássaros tristonhos com cantos saudosos.

Caminhamos um pouco mais, até eu colidir com Clara, que parara abruptamente. Haviam lágrimas em seus olhos e suas mãos tremiam um pouco quando ela apontou. Circundado de girassóis amarelos que só exaltavam sua branqueza pura, um túmulo erguia-se.

Clara deu alguns passos, esquecida de mim ali. Ajoelhou-se ao lado dele, e transformou todo o seu pesar em lágrimas grossas, peroladas, que faziam caminhos silenciosos em seu rosto bonito. O vento dava-lhe um abraço gelado, e brincava tristemente com os cabelos claros. Não quis interromper, me senti intrusa na dor de Clara. Aproximei-me devagar, apenas para ler os dizeres do túmulo branco.

Nenhum epitáfio. Apenas uma data de nascimento. O amor nascera, e fora enterrado. Ainda assim, não havia morrido.

* Continuando a brincadeira, que a começou. Vez do Antonio contar.

5 comentários:

Nathy disse...

Ai, que triste!

Felipe Braga disse...

Ah, por isso sou teu fã!
É difícil morrer assim, não?
Belo texto, como todos aqui postados.
Parabéns, Aline.

Wevertton disse...

Nossa vc arassou na postagem.. tô te falando eu tô com medo da brincadeira, tá ficando uns textos maravilhosos!! Olha postei de novo, qnd puder. Passa lah.
Bjoo Otima semana, o texto ta ota 10!!

Antonio Gerent disse...

Muito intensa essa história né? Parabéns pelo texto... Fiz minha parte, vamo vê onde essa bricadeira vai parar!

Beijo

Maria Fernanda disse...

Fiquei atônita ao te ler pelos detalhes que imaginei, sem escrever, e tu os colocastes. Tua definição da Clar me deixou boba e feliz.

Não poderia ter melhor para brincar do que tu, moça. Tuas palavras me encantam.

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