27 de julho de 2009

Flores em livros

27.07.2009

Anda tudo meio assim. Feito vela depois de um sopro, feito flor abandonada em livro. Prazeres maldosos, esses. Sopra-se a vela pela simples curiosidade de vê-la apagar-se, morrer; preferem-na apagada e intacta do que acesa, viva, sucumbindo lentamente à chama. E trancafia-se, também, flores frescas em livros grossos, antigos, empoeirados. Depois espera-se que a pobre flor murche entre as páginas amarelas, esperam que ela seque entre letras que ela não pode ler. E mais tarde se abre o livro, se folheia as páginas, e aí observa-se a flor, sem vida, sem cor. Eterna, sem ter vivido. Tão triste isso. Enconder a vida num livro e só reabrir quando for tarde demais e a flor já tiver secado. Só se lembrar da vida depois que ela já se foi. Por certo a flor também murcharia fora do livro, e cedo ou tarde a vela se acabaria também. Mas soa tão cruel força-los a não viver...!
Enfim. Ando assim. Vela apagada, flor seca. Cheia de sorrisos toscos, foscos, forçados. Cheia de machucados, resultado de quedas e de flores recentes. Meus olhos de gente miúda perderam a franqueza que me era tão característica. Nada de cigana oblíqua, apenas esse reflexo pálido do que se sucede cá dentro. Olhinhos agora constantemente pequenos de choro e de sono. Já não tenho mistérios, nem encantos, nem historias bonitas ou sonhos novos. Já me resta um quase-nada.
Me sobraram uns poucos livros na estante, onde escondi há pouco uma flor bonita que brotou em mim, e que de tão linda me deu medo. Arranquei e escondi, mesmo sabendo que acabaria por tirar-lhe a vida. Mesmo sabendo que a flor, tão linda, secaria. E era apenas um botão, ainda, a pobre! Não é o mesmo quando se guarda a flor numa poesia, num desenho, numa data anotada num papel. Eu não guardei a minha flor, não superei, apenas a escondi. Achei que seria melhor assim, e que cedo ou tarde eu me esqueceria, como fazem as pessoas que se esquecem em qual exemplar largaram suas lembranças.
Mas quando eu penso na flor, num desses livros na estante, me vêm essas lágrimas doídas.
É que as raízes dela ficaram, e ainda me doem demais.
"E quando eu estiver morto
Suplico que não me mate
dentro de ti"
(Sutilmente - Skank)

12 comentários:

Ni ... disse...

Seu transbordar de sentimentos chegou até aqui...

Lindo...!

Beijo e mais beijos...

Thais Motta disse...

Lindo .
Realmente as lembranças nos trazem sensações estranhas , que eu as vezes gostaria de esquecer !

Otimo texto ! ;)

Um beijo !

Marina disse...

Lindo demais!
To encantada!

Rodolfo Alves disse...

Adoro ler blogs, e o seu me encantou de uma maneira especial. Gostei muito do texto, apesar dos paradoxos - ou talvez justamente por eles.

Beijos.

ℓiiα, ♥ disse...

Lindo, eu amo mesmo tudo o que vc escreve! *-*'
"Mas quando eu penso na flor, num desses livros na estante, me vêm essas lágrimas doídas."
É bom estar sentimental.

beijos.

Felipe Braga disse...

O encanto dos teus textos me batem em cheio! É muito bom ler o Notas Noturnas.
Só posso te parabenizar: Parabéns.
Beijos.

Claudia disse...

É triste não saber do que (ou de quem) ela está falando...

=(

Yell. disse...

Não fique assim Claudia, somos dois.

Maria Fernanda disse...

metáforas que me fazem sonhar.

Mandy disse...

Ai ai minha querida...
se a raiz continua aí ela pode crescer de novo :)

Iris Gimaiel disse...

As vezes é mais facil esconder os sentimentos, ignorá-los. A lembrança muitas vezes machuca, e muito.
Por isso que é bom ser criança: somos sempre alegres porque não conhecemos a força de um sentimento.
Mas eventualmente nos esquecemos e esse sentimento ruim morre. O ruim é quando ressucitamos o sentimento, dois demais. Mas não se preocupe, com o tempo tudo melhora.

Laura disse...

muito bom...muito bom mesmo...
e uma das melhores coisas que ja escreveu.

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