4 de setembro de 2009

Amor Passageiro

Ele já sabia que dali a poucos minutos aquele ônibus se tornaria um forno. Um tedioso forno gigante. Com alguns anos de profissão, o jovem cobrador de ônibus já estava habituado aos trocos, aos pontos, aos terminais. Se no começo era empolgante brincar de decorar os pontos de parada, logo a coisa perdeu a graça e ele fazia tudo mecanicamente. Aquele seria outro dia comum em sua vida. Seria.
Mas ela apareceu.
Ele nem ergueria os olhos, mas foi atraído pelo perfume adocicado e cativante, pela fragância adoravelmente feminina. E então ele a viu. Por um instante ficou vidrado, com os olhos presos nos olhos castanho-dourados da moça. Um breve instante, pois ele logo liberou a catraca e passou para o outro lado. Ele a seguiu com os olhos, calculando distraidamente trocos e liberando passageiros quase sem notar. Observou-a atentamente. Pelo modo como olhava constante para o relógio, estava atrasada. Estava observando a maciez delicada com que ela esfregava as mãos uma na outra quando um telefone tocou. Ela atendeu. E sorriu um sorriso que iluminou seu rosto. Ele apurou os ouvidos pra ouvir o que ela dizia. "...Estou chegando...", ela disse.. Agora tinha certeza. Ela estava mesmo atrasada. Seria para um encontro? "..claro, claro...eu também amo você..." Seu coração estava prestes a se despedaçar quando ela completou: " .. Eu, sei, mãe... Já estou chegando...Até mais!". O cobrador sorriu. E o homem que passava pela catraca tentou imaginar o que ele estava pensando.
Ela era bonita demais pra que ele não falasse com ela. Parecia tão diferente da maioria... Havia algo nela que gritava pra que ele tomasse alguma atitude. Confirmou: ela não usava alianças nas mãos pequenas. Precisava sair daquela cadeira, ir até lá, perguntar todos os detalhes dela, conquistá-la...
A moça levantou-se. Deu sinal. Desceu pela porta traseira. Ele ainda pensou em descer do onibus, correr atras dela, perguntar-lhe o nome... Mas liberou a catraca pra senhora seguinte, como bom cobrador que era. Deixou que ela fosse. Suspirou.
Era outro de seus amores passageiros.

[Em 02/10/2007]

10 comentários:

Cleiton disse...

Eu me lembro dessa cronica *-*
Linda, assim como a autora

Felipe Braga disse...

Lindo!
Sensível, belíssimo, como tudo que você escreve.
Beijos, Aline.

Felipe Braga disse...

Teu blog tá lindo!

Erica Maria disse...

Adoro seus textos, esse tá lindo...

Bjos em seu coração!

Erica Maria disse...

Estou pensando em fazer um blog pra escrever com quatro pessoas ou mais, vc topa?

Vou ver se organizo isso até o final do mês!

Vc tem orkut, msn?

Bom , se tiver orkut me add: ericammaria@gmail.com

Msn: ericammaria@hotmail.com

Bjos querida, te gosto!

Lizzie disse...

E é incrível pensar em quantas gentes,não sendo exatamente cobradoras, vivem como tal: de amores passageiros e com catracas a girar.

Beijos
www.lizziepohlmann.com

Hosana Lemos disse...

e se ele tivesse seguido ela?
e se...


linda história!

também sou cheio desses amores passageiros!

tá lindo o blog!
^^
=*

Rodolfo Alves disse...

Nossa, eu tinha vindo aqui algumas poucas e, por relaxo, não voltei mais. Realmente o seu blog é muito bom e a sua escrita é muito pertinente.

Voltarei.

=)

Mariana. disse...

As vezes me pergunto o porque de tantos amores passageiros assim? Porque nenhum vem e fica? :~

Lindo texto Aline, simples e verdadeiro :*

André disse...

Acho que eu discordo da Mariana... tenho certeza que existem amores que ficam...!!

mas então, Aline, belo texto, viu ?!?

=****

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