29 de dezembro de 2009

Ler.

- Outro livro? Onde está aquele que você estava lendo ontem?
- Eu já terminei - ela respondeu sem tirar os olhos da história que lia.
Era o terceiro livro em três dias. Havia pouco pra fazer. E então ela mergulhava naquelas histórias e se permitia esquecer do mundo. Acabava sendo impossível, porém, esquecer-se por completo. Havia sempre um nome familiar, um cena, uma fala, algo que a tirava do transe e a trazia de volta. E então ela suspirava. Piscava longamente os olhos castanhos antes de voltar a ler.
- Você anda lendo demais. Por quê?
A moça não quis interromper a leitura, e deixou um "por nada" solto no ar, concentrada no que lia. A mulher se afastou, deixou-a só com seu livro, mas a pergunta continuou martelando em sua mente, fazendo com que lesse o mesmo parágrafo duas, três vezes, sem que se desse conta. Por que lia tanto, meu Deus?
Saía de sua vida pra fugir pra história daquelas outras pessoas. Por vezes se escondia na fantasia de uma ficção, outras num suspense, e outras numa guerra. Invariavelmente, encontrava personagens dignos de sua admiração,de seu respeito, até de afeto. Invejava um tanto a coragem que eles tinham. As coisas todas que enfrentavam, quase sempre por amor. Suspirou, repreendeu-se. Sentiu-se tola. Aquelas pessoas sequer existiam e tinha mais coragem do que ela. Ela, que se escondia nos livros quando devia estar lá fora, vivendo, sonhando, sentindo. Quantas aventuras a aguardavam lá fora, no mundo real? Outras tantas, talvez até maiores do que as que estava lendo. E ela ali, parada, lendo. Imersa nas palavras de outros, encantando-se com personagens que não precisavam dela. Escondendo-se de sua própria história. Lendo a vida dos que viviam ao invés de se esconder.
Era por isso que lia tanto. Lia porque não sabia viver.
Olhou pra janela aberta. O dia lhe sorriu.
Piscou os olhos.
Voltou a ler.

6 comentários:

disse...

Parece comigo. Um dia, minha mãe me mostrou um poema: "Quando eu era menina,a verdade parecia estar nos livros: ali moravam as respostas e nasciam os nomes.
Quanto mais procurei,mais me perdi
na trilha das indagações: as respostas não vinham, a verdade era miragem, a busca era melhor que a descoberta, e nunca se chegava.(Viver era mesmo sentir aquela fome)" da Lya Luft.

Acho que basta.

Erica Maria disse...

Tá lindo.

Saudades de ti.

Esse final de semana vou dar uma atenção especial ao nosso blog...

O tempo ainda anda corrido pra mim...

Bjs*

Marie disse...

Também sou assim, leio para me esqueçer da vida. Vivo meu próprio conto-de-fadas e sou feliz assim.
Já tive muitos amores, traições e brigas. Passei a confiar mais nos livros e nunca me traem.

Ítala disse...

Solitário, mas não deixa de ser verdade: quem nunca sentou-se na companhia de um livro pra poder veer vista nas palavras de quem o escreve em busca de ajuda?

BjOs
Bom fim de ano
^^

André disse...

Coragem, pequena... é tao relativo! voce ja a teve tantas vezes, embora nao perceba...!

lindo o texto, como todos!

Laura disse...

um livro foi meu melhor amigo por muito tempo,ai um dia tive amigos de verdade,que discutiam meus livros comigo.

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