26 de fevereiro de 2010

Crianças

O pai chegava em casa, dia longo no trabalho. Os três filhos brincavam no jardim. Haviam formado uma fila e saltavam, um por vez, de cima do banquinho cuidadosamente arrastado da varanda pro gramado. O ar de seriedade no rosto dos pequenos intrigou o pai. Aproximou-se.
- Oi! Estão brincando de que hoje?
Os filhos lhe sorriram felizes, mas logo o menor, no auge de seus 6 anos, o corrigiu:
-Não, papai, não estamos brincando! Hoje estamos com-pe-tin-do. - falou pausadamente, como se a palavra ainda fosse nova e muito dificil de dizer.
- Competindo?Mas pra quê, meu Deus?
O mais velho, quase 10 anos completos, tomou a frente. Obviamente era ele o autor da idéia:
- Eu achei uma moeda no jardim...
-...mas fui eu quem viu primeiro!
-... e fui eu quem pegou!
-...e a idéia de brincar no jardim foi minha! Bom, papai. Nós achamos essa moeda dourada. - tirou do bolso uma moeda que brilhou bonita sob o Sol alaranjado de fim de tarde. - E agora vamos ver quem pula mais alto. Quem pular mais alto do banquinho fica com a moeda!
O pai sorriu. Desejou boa sorte aos filhos e entrou em casa. Um beijo e um sorriso pra esposa, uma ducha, e o sofá da sala, nessa ordem.
Pela janela ainda via os três meninos brincando - 'com-pe-tin-do', lembrou, na voz do menor. O garoto do meio saltara mais alto que os outros dois, e sorria, satisfeitíssimo. O menor havia fechado o rostinho pequeno e o mais velho tentava convencer os outros de algo que o pai não sabia o que era - provavelmente inventava alguma nova regra que invalidava o salto do irmão de oito anos. Riu-se. Que adorável bobagem aquelas crianças estavam fazendo. Era apenas uma moeda dourada. Competiam por ela, discutiam, levavam a sério, talvez fascinados pelo dourado brilhante que haviam visto, talvez apenas pra provar um ao outro o quanto eram capazes de pular alto. Talvez só pra ter orgulho de contar à ele, o pai, que tinha ganho a moeda, que era o que pulava mais alto na face da Terra. Deixou os meninos. Ligou a TV.
Olimpíadas; Saltos ornamentais. Valendo a medalha de Ouro.
O pai concentrou-se.
Aquilo, sim, era importante.


-

Somos todos apenas crianças crescidas.

Um comentário:

Sonia Pallone disse...

Ser poeta é temperar com cores o nosso pensamento...Bom estar aqui. Bjs

Postar um comentário

Anote aí.