31 de março de 2010

- Oi, doutora. Já podemos começar?
- Podemos sim. Tudo bem?
- Sabe, é estranho. Eu sempre sinto o impulso de dizer 'estou bem, e você?', como se fosse ofender se dissesse que não. Mas quando eu te procurei eu me propus a ser sincera, não é? Então, não, doutora. Eu não estou nada bem.
- E não está bem por quê?
- Não sei. Acho que é porque me sinto muito sozinha. Me sinto? Ah, doutora. Eu sou sozinha. Desde sempre. E sou muito fraca também. Eu preciso de alguém pra segurar a minha mão e me dizer que tudo vai ficar bem, mesmo que esse alguém não tenha certeza de vai mesmo tudo funcionar. Ultimamente parece que todo mundo desistiu. Eu não sei se consigo acreditar sozinha em tudo. Se ninguém acredita em mim, por que eu deveria acreditar?
- Não acha que é um bom começo? Talvez se você acreditar convença os demais a acreditarem também.
- Ah, doutora. Dessa vez eu queria que alguém é que fizesse algo por mim. Não quero fazer nada por ninguém. Eu tinha tanta certeza de que tudo ia ser diferente, sabe? Eu voei tão alto. Que é que aconteceu, a senhora sabe? Em que momento as minhas asas pararam de bater?
- Só você pode saber disso. O que você acha?
- Eu não sei doutora. Mas se no meu vôo seguro até as minhas asas pararam, quem me garante que meu coração suporta continuar batendo?
- Você não garante?
- Não, doutora. Eu já não tenho forças pra nada sozinha. Acho que nem desistir de verdade eu consigo. Nem disso eu sou capaz. Mas enfim. Acabou nosso tempo hoje?
- Acabou, sim.
- Então até a próxima, Dra. Escrita. No mesmo horário, semana que vem?
- Ou a qualquer momento, se você me procurar.

4 comentários:

Antonio Gerent disse...

Há melhor ouvinte que o papel? (ou que o pc nesse mundo moderno...)

=)

Ni ... disse...

E tem momentos que a doutora escrita nos ajuda por demais... rs

Beijo daqui prai...

Gabrielly disse...

e é a escrita que nos salva em muitos momentos de tristeza...

Erica Maria disse...

Saudades daqui...lindo texto!!!

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