24 de julho de 2010

Das coisas preferidas

(não foi escrito exatamente pra fazer sentido)
Eu andei reparando, a maioria das coisas que eu gostei já foram remendadas alguma vez. Coladas, grampeadas, costuradas, montadas, encaixadas... Eu nunca fui muito delicada e cuidadosa com as coisas de que gostava, admito. Nunca tive o mesmo talento que os meus amigos e primos, cujos brinquedos preferidos ficavam seguros na prateleiras altas, cuja roupa favorita ocupava espaço no armário pros dias especiais, que não usavam a caneta preferida quase nunca e adiavam ao máximo usar os adesivos da cartela, pra que durassem mais tempo. A boneca que eu mais gostava perdeu os sapatos e a cabeça, que eu consertei várias vezes e continuei carregando pra todas as aventuras, fazendo ela virar Power Ranger e salvar a cidade de Lego do terrível bicho de pelúcia. Minha camiseta preferida era manchada de canetinhas e de amoras, e ganhava um rasgo novo a casa final de semana (que culpa eu poderia ter? eu sempre estava vestida com ela quando desenhava os cadernos, quando caía da árvore ou da bicicleta). O livro que eu mais gostei de ler quase perdeu todas as páginas, e a capa se rasgou um pouco quando eu adormeci sobre ele, no meio da milésima releitura (tem uma cicatriz de fita adesiva nele agora). E eu sempre gastava os adesivos na mesma semana que ganhava a cartela. Quanto mais eu gosto de alguma coisa, mais cedo acabo me descuidando e deixando acontecer alguma coisa com ela.  E, embora eu tenha me acostumado com o tempo e aprendido vários modos de consertar as coisas que eu quebro, nunca foi confortável ver as coisas que eu gostava se partirem. O que me assusta, no fim das contas, é que o que eu sinto por você é o meu sentimento preferido (incrível como tudo que eu escrevo se volta invariavelmente pra você, mesmo quando é sobre mim que eu falo). É o sentimento que eu carrego pra todos os lados, que eu mostro feliz pra quem quiser ver. Eu tenho tentado ser mais cuidadosa com esse sentimento, sabe. Refletir, aceitar, pensar mil vezes antes de dizer uma bobagem. É que às vezes eu acho que não vou poder evitar. Não vai ter a mesma graça se eu não for plena no que sinto. Não vou viver esse sentimento se ficar sempre tomando total cuidado com o que digo, com onde piso, com o que vão pensar se eu disser ou fizer. Seria o mesmo que deixar o brinquedo na prateleira e brincar sozinha. Ou ler o livro uma vez só, virando devagarinho as páginas mesmo que eu queira ler depressa, só pra não amassar. Ou deixar de pegar amoras na árvore pra não manchar a camiseta. Sentir isso tudo que eu sinto é tão lindo, tão meu, que eu não sei fazer outra coisa que não continuar sentindo, mais e mais... E me amedronta vislumbrar a possibilidade de acabar gastando tudo. É cheia de medo que  eu tenho pensado em como eu vou consertar isso se quebrar. Ou se de fato eu vou poder consertar, caso quebre. Onde eu vou achar mais disso se esse gastar até o final. E se eu não achar nunca mais, em lugar nenhum, igual eu nunca mais encontrei outra caneta de três cores que mudava de cor no meio da frase, depois que a minha ficou sem tinta? E embora esse sentimento seja mil vezes mais importante que uma caneta colorida, eu não consigo parar de pensar no quanto seria imprudente não guardar o que eu sinto um pouco, ao invés de continuar gastando.

(Tomara que você volte logo, pro meu amor triplicar outra vez e eu ficar com a certeza de que mesmo que eu viva muito tempo não vou ter gastado tudo. Desconfio que esse é o meu sentimento preferido justamente por isso: eu quase sempre acho que vou poder sentir intensamente por muito tempo ainda, sem deixar quebrar)

2 comentários:

Gabih Dias disse...

Assustador como sempre consegue me definir...
Sabe, Aline, ler isso no momento, com o que tô passando, me fez pensar. Usa, gasta esse sentimento, que ele cresce de novo, infinitos refis. O meu aqui, tão pouco gasto, tão semi-novo, indo pra longe sem acabar. E o que eu faço com ele enquanto não acaba (e vai demorar muito pra acabar) ? Fico sentindo ele, e gastando, sozinha.
Tomara que todas as coisas boas que a gente sente nunca nos deixem.
Também não foi pra ter sentido.
Lindo texto.

Felipe Braga disse...

Poxa vida, tanto tempo que não venho aqui e, quando venho, me deparo com uma delícia como essa!

Não sumirei mais, ficarei grudado.
Sempre doce!

Beijos.

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