18 de setembro de 2010

Eles, os óculos

Já ouviu falar dessas meninas de óculos? Dessas pobres meninas que eram normais, antes de lhes botarem vidro na frente dos olhos?
Dessas meninas que se acostumaram a ver o mundo com esforço, que já se haviam adaptado a um mundo de muitas cores e pouca definição... E que, de repente, descobriram que o mundo que viam era diferente, que foram corrigidas por lentes, e que então precisaram se adaptar de novo, dessa vez ao mundo agora nítido como as outras pessoas o viam. É preciso falar de como é tentar se convencer de que é tudo normal, e que muita gente usa óculos, mas continuar sentindo, ali num canto de si mesma, que seria melhor não precisar de óculos nenhum. Falar do incômodo dos primeiros dias, da sensação de que tem algo de errado e de muito diferente. Do sentir falta dos borrões, e às vezes sair escondida, guardar os óculos no bolso e ir vendo o mundo impreciso que era tão familiar uns tempos atrás. E do finalmente adaptar-se, achar estranha a imprecisão, e se acostumar a ver os óculos no espelho, ajustados ao rosto, como se sempre estivessem estado ali e nunca mais fossem sair. E ficar se perguntando como é que o rosto seria se a gente nunca precisasse de óculos. E falar da visão delas, que embaça com chuva e com choro. E da visão do resto do mundo, que quase sempre as definem assim: "aquela menina de óculos", como se todas as demais características tivessem desaparecido e tivesse sobrado apenas eles. Sempre eles, os óculos. Deixando essas meninas com cara de inteligentes, ou com um jeito de tímidas, ou com os dois, ao mesmo tempo, se a menina tiver um pouco de sorte, ou de azar. Sempre eles, caindo pelo rosto quando a gente olha pra baixo por muito tempo, quando ri com muita vontade ou quando chora cabisbaixa e cheia de motivos. Eles, os óculos, que dividem opiniões, que uns amam outros detestam,  que uns queriam e que outros não vêem a hora de se livrar. Essas pobres meninas escondidas atrás deles, com o brilho dos olhos como que guardado pra quem olhe além das lentes. Dessas meninas que se sentem solitárias, que se acham diferentes, que acostumaram-se a ter quatro-olhos pra enxergar além do que dizem, que se tornaram capazes de perceber quem vê os olhos e quem vê os óculos. Dessas meninas que acabam por se enturmar com toda sorte de pessoas, com gente sem óculos que consegue ver e com gente com eles que nem se importa em tentar enxergar. Dessas meninas que percebem que de trás dos óculos podem enxergar e sentir tão bem quanto as meninas que enxergam direito sem necessidade deles. E dessas, que às vezes acabam se apaixonando por um desses meninos de óculos, e que finalmente percebem que isso no fundo quer dizer muito pouca coisa sobre si ou sobre o outro. E que, apaixonadas, sequer precisam tirar os óculos pra ver tudo em borrões coloridos, girando em volta de si em adorável confusão, como o frio na barriga e as risadas de quando a gente é criança e brinca de rodar com os braços abertos, em troca de perder o controle por uns segundos que seja. Dessas meninas, pobres meninas, de óculos, que são tão normais quanto se pode ser quando se está escondida atrás de lentes.

6 comentários:

Duanny!. disse...

adoreei.
Muito criativo.
E vou te contar, sempre quis usar óculos.
Juro, mas não preciso.
Já minha amiga, usa lentes de contato, porque detesta os óculos.

ameei, gata!
;D

Maria Fernanda Probst disse...

Acho fofo. E uso.

Fran disse...

Quero um óculos. T.T

Line você já foi beijar o André e os 2 esqueceram de tirar o óculos e bateu vidro com vidro? hauhsuaa Pergunta infame kkkkkkkkkk

Anônimo disse...

hsuahsau...rirsos da pergunta infame da fran

Sonia Pallone disse...

Que lindo Aline! Cheio de sensibilidade nas entrelinhas...Bjs.

Gabrielly disse...

muito lindo! eu uso lentes de contacto pra não ter que usar esses óculos, não sei porque, nunca gostei de óculos K, parabéns *-* depois visita o blog e comenta sobre o que achar dele *-* bgs :*
www.gabrielly-meujardimsecreto.blogspot.com

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