19 de outubro de 2010

o caos, o drama, a solidão, o semáforo, o chefe. no carro parado os assuntos se alternavam e se repetiam infinitamente, incansavelmente. mas que diferença isso fazia, pra quem já se sente preso mesmo quando o trânsito flui? presa na rotina, nos deveres, nas condições, no quando-der-eu-faço, no amanhã-eu-penso-nisso. presa naquela cidade que era cinza e apressada demais pra se importar com ela, ali, sozinha, presa, no carro, no mundo, na vida. sempre presa, nunca predador. sempre alerta e à espera, como que sabendo do perigo iminente que corre quem anda sozinho nessas ruas. o ar naquele carro logo acaba e o transito ainda não se moveu. ela já está claustrofóbica, as paredes parecem diminuir, o mundo a sufoca, socorro, ela pede e nada funciona. olha as janelas fechadas, manda a cautela pros ares, abaixa o vidro como se ali estivessem todas as soluções, como se o mundo fosse seguro. o ar vem seco e sujo, mas ajuda a respirar. tosse um pouco, se engasga, abre os olhos pro cinza lá fora. e, em seguida, o que vê é cor. cores, cores, cores. uma explosão colorida em meio ao caos urbano. a figura se move tão rápido que a princípio ela não identifica. mas logo as lembranças e os contornos se definem. aquilo é um palhaço? já faz tanto tempo que ela não vê um que se surpreende. e então descobre, no rosto pintado do moço, um sorriso bonito que se estende até a altura do nariz vermelho. cores e sorriso. os dois tão raros de se encontrar que os olhos dela já se fixaram. o moço-palhaço dança entre os carros, os malabares coloridos voando de uma mão pra outra, a mochila pequena jogada num ombro só. ela sorri. o palhaço é urbano também, enfrenta o trânsito com a maquiagem e o malabarismo. o olhar dela ainda está fixo, e ele finalmente percebe. o sorriso dele fica maior, os malabares param e ele se move entre os carros. o sorriso fixo. na direção dela. a sensação de claustrofobia cresce, o sorriso dela diminui, ela tem medo, quer fechar o vidro, mas não consegue, não se move. os carros da frente se deslocam alguns centímetros, mas ela não vê. não vê mais nada além do rosto pintado. ele chega à janela dela. tira da mochila pendurada nas costas uma flor de plástico. estende pra dentro da janela, o sorriso brilhando, e move os lábios pra dizer algo que ela não ouve, pois a fila de carros atrás dela buzina incessantemente. mas ela não precisaria ouvir pra entender os olhos dele, pra não aceitar o gente claro de 'toma essa flor, é pra você'. ela aceita, ainda pasma demais pra sorrir. o palhaço se afasta satisfeito, corre entre os carros de novo, e, lá de longe, acena pra ela com ar divertido; ela olha pro transito parado alguns centimetros a frente. o mundo milagrosamente ainda tem cores e gente sorrindo. ela olha pra flor que colocou no banco ao lado. ela avança no trânsito já conformada, já menos presa ao caos. agora tem cor e sorriso no seu mundo também.

5 comentários:

Gabrielly disse...

São coisas tão simples assim, como um palhaço, uma flor mesmo que de plástico dada com carinho que fazem o nosso mundo mais feliz, mais colorido, e então eu me pergunto: porque as pessoas dizem precisar de tantas coisas pra serem felizes, quando algo tão pequeno pode nos fazer sorrir ?

Amei o post *-*
quando puder visite o meu blog:
piece-ofme.blogspot.com

beijos :*

Sonia Pallone disse...

Detalhes que fazem a diferença... bjs

Felipe Braga disse...

Li a primeira vez e achei fantástico; reli para tentar pegar alguma coisa nas entrelinhas e fui arrebatado. Não podia ser diferente.

Você é fantástica, Aline.

Duanny!. disse...

A verdade é que sinto falta dessas suas frases incriveis, lá no Delas!
#prontofalei

ótimo texto, querida.

★★ GIZA ★★ disse...

ola
adorei seu blog e estou te seguindo
me faça uma visita:
www.flordelotus29.blogspot.com
me siga. vou adorar que sejamos amigos
beijos

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