18 de fevereiro de 2011

#2 - Para a sua paixão

(esse texto já está escrito há algum tempo. já tinha ido por e-mail, mas ainda não tinha aparecido aqui. qualquer carta que eu tente escrever agora vai ficar parecida com essa, porque o que eu sinto sobre isso não mudou - e eu acho que nunca vai.)


Eu sempre te vi pássaro. Desses que cantam bonito e voam muito alto. De uns tempos pra cá, 'meu pássaro'. E por vir tanto pra minha janela, e por ser sempre tão doce comigo, eu me habituei a chamá-lo assim: meu. E te ter sempre no beiral da janela, tão perto, tão lindo, quase me fez esquecer que, antes de meu, você já era pássaro. Só fui me lembrar disso dia desses, quando você me avisou do vôo seguinte. E me contou que queria voar pra bem longe, mas que voltava. E garantiu que sentiria falta da minha janela, mesmo que habitasse outros céus. E me perguntou se eu esperava. Você, que é pássaro e que é livre, me pediu pra voar.
Confesso, passarinho, que foi um choque. Como eu já disse, quase me esqueci das tuas asas. Eu, no meu egoísmo, esqueci tua natureza de pássaro. Quis te mostrar minhas lágrimas todas, e te dizer que você é meu passarinho, que é na minha janela que você tem que ficar. Quis te pedir pra ficar, te contar do quanto a janela, a vida, os dias iam ficar todos vazios e tristes se você fosse pra tão longe, e mensurar a saudade que eu sentiria e o amor que eu te dedico, pra tentar te convencer. Quis falar das minhas carências, e vontades, e medos. Mas só quis, meu bem. Foram só meus traços egoístas querendo gritar, mas eu freei. Eu não quero te prender, passarinho. Não poderia. O que eu mais amo em ti é justamente essa tua imensa capacidade de vôo. Prender e perder são palavras tão próximas que eu não me atreveria. Eu jamais seria a tua gaiola.  Eu, que te amo tanto, quero mais é te ver voando. Só me dói não saber voar junto. E nem poder acompanhar o teu vôo daqui da minha janela. Mas acredita em mim quando eu digo que entendo. E que vou torcer por você, independente de mim. Você é meu pássaro, e eu quero ser teu ninho. Quero ser o lugar pra onde você volta depois de voar. E te acolher, e te abrigar, e te cuidar, e te amar tanto, tanto...! Então vai, passarinho. Alcança as nuvens e mostra pro céu o tanto que você pode voar. Mostra pro mundo o quão alto você chega; Eu fico aqui, e te espero, te amando cada vez mais. Cuido do ninho e deixo ele pronto pra tua volta. Vou sentir sua falta, meu bem, e contar os segundos pro seu retorno. Mas pássaro só tem sentido se for livre. E ninho só tem sentido se tem pássaro.

2 comentários:

Sonia Pallone disse...

que deliciosa prosa poética... Amei!

Priscilla Bastos disse...

lindíssimo.

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