11 de agosto de 2011

da dor.

é como quando a gente vai tirar sangue e vira o rosto pro outro lado, como se não olhar pra própria dor tirasse dela a força. como quando a gente machucava o joelho e fechava os olhos enquanto passava o remédio que ardia. a gente tem disso, né? de olhar pra outra coisa quando tem algo doendo demais. de se fazer de gente grande e fingir que não liga pro machucado. e não funciona, nunca funcionou. a gente se distrai, olha pro céu colorido, vai brincar de outra coisa, mas o corte que a gente fez na queda continua ardendo. a gente até se sente um pouco feliz. mas qualquer esbarrão, qualquer vento, qualquer toque, dispara a dor toda outra vez. e a gente fica ali, tentando ignorar, esperando e esperando e esperando, até passar.
e a gente insiste em virar o rosto.
a gente devia era olhar pra dor. encarar o corte, o sangue, o remédio que arde. a gente devia era ver todo o processo de recuperação, ao invés de um dia, de repente, descobrir uma cicatriz. devia assistir, pra ter certeza de que pode passar por aquilo e sobreviver. para parar de ter tanto medo de doer, e assim conseguir sentir plenamente. se entregar de verdade pra vida. devia encarar pelo menos uma vez a dor como um todo, ter plena consciência dela, pra entender como dói, onde dói, por que dói. pra aprender e pisar em menos espinhos, pra não se desesperar quando acontecer de novo (porque vai acontecer). doer é tão natural. difícil, sim, mas natural. quem se fecha pra dor se fecha pra todos os outros sentimentos. a gente devia era parar de fingir que não sente, parar de tentar fugir disso. devia doer, sim, sabendo que dor também passa. que tem hora pro riso e pro choro. que machucado sara. que logo, loguinho, tem pele nova nascendo debaixo do corte. sabendo que dor também transforma. que deixa a gente mais forte depois.
mas a gente continua virando o rosto.
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"por que só a beira, e nunca o abismo? por que apenas o equilíbrio e nunca a queda? há quanto tempo você não sangra?" (E.B.)

5 comentários:

Claudia disse...

Tudo o que eu queria dizer.

Miily ;* disse...

Quer saaber eu amei, amei o lugar, e amei as palavras. As palavras que no fundo se encaixam em cada um de nós. Afinal quem nunca virou o rosto para ignorar a dor não é mesmo?
Isso foi muito bom, e talvez vc tenha dito tudo isso, por estar cansada dessas coisas, e esse é sem duvida um ótimo primeiro passo pra mudar essa história.

Voltei sempre. Sucesso :*

Miily ;* disse...

Quer saaber eu amei, amei o lugar, e amei as palavras. As palavras que no fundo se encaixam em cada um de nós. Afinal quem nunca virou o rosto para ignorar a dor não é mesmo?
Isso foi muito bom, e talvez vc tenha dito tudo isso, por estar cansada dessas coisas, e esse é sem duvida um ótimo primeiro passo pra mudar essa história.

Voltei sempre. Sucesso :*

Anônimo disse...

esse ficou bom, bom de verdade.

Sonia Pallone disse...

Perdi meu olhar na paisagem da tua emoção...

Beijo&Carinho

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