17 de setembro de 2011

Embala a criança adormecida com uma delicadeza que beira o impossível. sussurra para o filho que logo, logo, tudo vai ser muito diferente. Ela diz mesmo sem acreditar. Já não tem mais idade para ter sonhos, mas não vai permitir que o menino cresça sem esperanças, não mesmo. Então continua, baixinho, em tom de prece, contando de um futuro muito bonito, longe daquela casa pequena, longe do frio, longe da fome. Uma vida linda num futuro próximo.  Olha para ele com um amor cheio de tristeza. A presença dele ali traz alívio e dor ao mesmo tempo. É uma criança tão linda, de riso tão fácil. Chora tão pouco, o menino. Como se já tivesse aprendido que chorar não resolve. Como se, tão cedo, já soubesse ser forte. Não é justo, ela pensa. Traz o menino para mais perto de si. Não é justo que ele tenha ido dormir com fome. Canta baixinho sem deixar a lágrima atrapalhar a doçura do som. Desafina de leve, mas a criança só ouve o afeto, e permanece tranquila no sono. Olha em volta, no único cômodo da casa, para se certificar de que não há nada mesmo para dar de comer ao menino. Não há. Do mesmo modo que não há ninguém por ela. Por eles. Ninguém a quem recorrer, ninguém que interceda. Ela se acomoda no colchão rente ao chão de terra batida, ciente de que amanhã a luta continua. Amanhã volta a procurar um emprego e a aceitar qualquer trabalho que encontre. Ela é grata pela vaga que conseguiu para o filho na creche ali perto. Grata pela refeição que ele vai receber lá. Sorri de leve, olha o menino deitado agora ao seu lado, e sabe que faria qualquer coisa por ele. Qualquer coisa. Vê quando ele se mexe em busca do calor dela. Seu estômago vazio e seu coração cheio lhe dizem que amor não enche barriga. Mas ela sabe que amor é o que a sustenta, ainda assim.

6 comentários:

Miily ;* disse...

Nossa, dói demais pensar que essa seja a realidade de muitas e muitas pessoas. ://

Erica Maria disse...

Oi Flor, tudo bem?
Vc pode me dar uma posição a respeito do Delas? Já deixei várias mensagens e vc não me responde...

Bjos e o texto tá lindo!!

M. Magalhães disse...

Conseguiu me emocionar, e com os olhos cheios dàgua venho te dar parabéns pela sensibilidade.

M. disse...

E no fundo eu senti uma baita saudade da minha mãe.
Lindo de mais.

Claudia disse...

Muito "lindo"! Por quase, quase cai umas lágrimas aqui...

Gabriella Dias disse...

É bem difícil ler algo assim e não sentir um aperto bem grande aqui dentro.
Um lindo texto, como sempre, Aline. :')

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