20 de abril de 2012

então é isso? você já vai? na verdade você já estava indo embora há tanto tempo que eu não consigo entender esse meu choque. talvez seja essa ideia do definitivo. ver você guardando esse pedaço da nossa vida nessa caixa de papelão. é a caixa daquele nosso abajur, não é? aquele verde. eu lembro que detestei quando você apareceu com isso aqui em casa e depois você queria se desfazer eu não deixei. acabei me apegando. engraçado né? eu às vezes faço isso. bato o pé dizendo que não quero deixar entrar e depois fico brava sem querer deixar ir embora. é que é sempre tão difícil pra mim, o novo. quando chega a novidade eu tenho que adaptar todo o meu mundo praquilo caber. mudo tudo. transformo o que era estranho em parte de mim. eu fiquei arrasada quando o abajur quebrou, você lembra? porque foi tão rápido... uma distração e pronto, o abajur virou um milhão de cacos de vidro. e ficou aquele espaço vazio. porque eu já tinha organizado tudo em volta. todo o resto da cômoda combinando com o abajur. quando ele quebrou ficou aquela falta. demorou pro olhar acostumar. de vez em quando eu ainda olho de esguelha e parece que eu vejo o abajur verde todo estranho na cômoda. mas não está. quebrou. foi embora e deixou o espaço vazio. com um monte de coisas que já não fazem sentido sem o abajur pra dar liga. você não está me ouvindo, está? acho que não. ali, olha, vai acabar deixando o CD. pegou aquele livro que você gosta tanto? bom, então eu acho que é isso. e você até já lacrou a caixa, que rápido. posso te pedir uma última coisa, antes de você ir embora? fica aqui comigo.