22 de maio de 2012

bailarina, saudade de chumbo.

eu estava procurando outra coisa. uma echarpe, eu acho. não me lembro direito. encontrei as sapatilhas e parece que o tempo parou. começando a rasgar, a ponta dos dois pés. as fitas começando a descosturar. são sapatilhas interrompidas. sou eu, interrompida. se eu fechar os olhos consigo enxergar perfeitamente. as dores todas dos ensaios. a felicidade do meu primeiro sissone perfeito. o tudo valendo a vida quando a plateia aplaudia. aplaudiam a minha leveza sem saber do peso daquilo tudo. da imensa dificuldade. da loucura obsessiva de quem abandona tudo por um movimento executado com perfeição. eu tinha uma carreira brilhante. fui interrompida pelo acidente. aquele maldito acidente. disseram que era sorte eu continuar podendo andar. "sorte", pois sim. ficou essa imensa cicatriz no joelho. esse coração pesando feito chumbo, diante de todos os anos que nunca mais seriam. atirei as últimas sapatilhas nessa caixa escondida no armário. não saberia encarar essas saudades e essa frustração. já se passaram 15 anos. e ainda dói.
- mãmã? - a vozinha chama, ali na porta. só mesmo esse sorriso de poucos dentes seria capaz de me tirar desse torpor. eu sorrio de volta, ainda pesada de saudades. mas meus olhos já não estão nublados. porque a minha princesa, no alto de seus 9 meses, está engatinhando até mim com esses olhos enormes e cheios de brilho. vestida de ouro e poeira. e de repente ela para e eu paro também. porque a minha menina faz um esforço imenso. enorme. se apoia na parede e se põe de pé. fecha o sorriso, se concentra. solta a mão da parede e eu aflita me lanço pra perto, e ela ri. ri como que dizendo 'eu consigo, mamãe'. e consegue. dá seu primeiro passo. vacilante, torto e perfeito. e ri mais ainda quando dá o segundo: 'isso é fácil, mamãe!'. e caí nos meus braços com uma gargalhada de anjo. me faz perceber que a vida é tão grande, é tão linda, e tão mágica. e que sorte eu tenho de ter ganho essa graça na minha história. que, bailarina, anda como quem dança. e nenhuma técnica, nenhum ensaio, igualaria a imensa delicadeza desses dois passinhos. nenhuma plateia me traria felicidade maior do que essa gargalhada.
essa casinha apertada seria vazia sem o balé dessa flor. e o peito, de chumbo, se abre pra vida. liberto, enfim, de uma saudade que o habitava há tempo demais.
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pro desafio dessa semana.

2 comentários:

Marcela disse...

Porque nem toda saudade é boa, e nem toda tristeza é eterna.

Maria Fernanda disse...

Diferente de tudo que li. Gostei do enredo (:

Beijinho, MF.
Palavras e Silêncio

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